sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Revolucionário Tranquilo

       Há dois tipos de revolucionário: um, muitíssimo mais raro que o outro, pega em armas ou até apenas em si próprio e enfrenta balas e tiranos e polícias, em Wall Street, no Cairo, na Tunísia, em Madrid. Anónimos, muitas vezes incultos, por vezes pobres de morrer, são, à custa da sua luta e por vezes do seu sangue, os obreiros de uma ordem nova que talvez esteja, aqui e ali, a querer finalmente despontar.

O revolucionário tranquilo nunca fez nenhuma revolução, nem sequer lá em casa, mas lê muito sobre revoluções e, apesar de, por acidente, estar momentaneamente situado na classe mais favorecida, a sua bagagem teórico-revolucionária é tal que, em qualquer momento, está pronto para assumir o seu papel natural de vanguarda do proletariado, enquadrando a sua luta rumo à sociedade sem classes.

O revolucionário tranquilo abunda por aí e é a versão intelectual dos antigos treinadores de bancada que, por essas barbearias, bancos de jardim e mesas de café, debitavam a quem os ouvia a receita infalível que faria o clube lá do bairro chegar a campeão nacional, pelo menos! Mas claro que o nosso revolucionário lhe é infinitamente superior, até porque o que são jogos de futebol, comparados com o destino e felicidade dos povos?

O revolucionário tranquilo tem ainda a vantagem de ter acesso a uma informação privilegiada, dos seus gurus e blogs, que lhe permite desprezar a orquestrada onda de mentira que engana o mundo dos desgraçados que vêem televisão e que assim não fazem ideia da teia de conspiração global que os vai dizimar e cujos sinais (para olhos iniciados) estão por todo o lado, assim os soubessem ler.

O revolucionário tranquilo é manso e apesar de fazer um chinfrim ensurdecedor, nem chega a incomodar pois o seu silêncio está à distância de um clic, vive em blogs e no Facebook, palcos onde, depois de pôr a boina basca, vai debitando, exaltado, a sua adrenalina revolucionária (e do Farmville também), congratulam-se em circuito fechado na sua revolução-de-rabo-na-boca e não fazem qualquer espécie de mossa que se veja pois até na altura de votar são tão superiores a essa manipulada manifestação de decadência burguesa que, sendo tantos tantos por aqui, depois, mesmo bem juntinhos, nem chegam aos 15%.